Injustiça, Advocacia, Desordem e Monarquia: uma história mal contada (I)


– QUANDO O TELEFONE TOCA!

– Posso dizer a frase?

– Diga!

– 8.000 euros!

– Está certa!

– Qual o disco que quer ouvir?

“Tininho no chilindró a cantar o solidó”

– Tou sim, quem fala?

Bom dia, Presidente, Carlos Pinto D’Abreu dá Cá o Meu…

– Humm, então, como tem passado o meu amigo?

Bem, Presidente, bem. A terminar o mandato no CDL OA.

– Então vai voltar a advogar, a pegar no meu caso, certamente…

Sempre brincalhão, o meu amigo. Caso? Acho que são casos…

– Fdx! Chame-lhes o que quiser, caso, casos, descaso, o que eu quero saber é se vai voltar a trabalhar com o Rui Elói Ferreiro. Cheira-me que em 2011 os gajos dos tribunais não me vão largar.

Presidente, a partir de Janeiro sou todo seu, juridicamente falando.

– Deixe-se de merdas e diga ao que vem.

Bem, como lhe disse estou de saída e desejo deixar a minha marca. Pensei na edição de um livro com textos de Ramalho Enes, Mário Raposa, Orlando Guedes da Costela, António Farnaut, Valério Bexigoso, eu mesmo, Francisca Van Duna, Carlos d’Almonda, Vânia Álvaro, Augusto Lopes Candoso, Carlos Alberto Vila Nova de Poiares e José de Sousa Macio.

– O General Enes deu em escritor? Andou a aprender nas Novas Oportunidades do Sócrates, não? Ou terá sido na Independente? Hoje qualquer um escreve, seja militar ou arrumador de carros. Mas você não me ligou para me informar que o Enes é candidato ao Nobel da Literatura, certamente…

É que para editar o livro, cerca de 1.000 exemplares, é preciso aquilo com que se pagam as taxas de justiça e a sua câmara tem fama de ser rica, o Presidente está sempre a dizer que não há falta de dinheiro, se puder contribuir, digamos, com 8.000 euros…

– Oh, D’Abreu, você não é nada pobre a pedir. Se soubesse o que vai nesta paróquia era você que fazia um peditório para me ajudar.

Mas, Presidente, todos os dias leio nos jornais as jantaradas, festas, excursões, as bancadas do estádio municipal da Praia, o centro cultural do Príncipe, que a Câmara paga. Os 8.000 são uma gota de água nos gastos da Câmara. Ouvi falar numa estátua qualquer de 125.000 mil euros. O que são 8.000 comparados com 125.000…

– D’Abreu, onde é que você leu isso? Onde é que você ouviu isso? Se leu nalgum jornal, deve ter faltado a tinta na rotativa, se ouviu na rádio ou na TV, deve ter faltado a corrente na altura em que diziam o preço. 125.000? Acha que eu fazia uma estátua comemorativa dos 250 anos e do meu 10º avô, o Marquês de Pontal, com uns míseros 125.000 euros? Pensa que eu sou algum forreta, algum pedinte? Por acaso viu a “perestroika” no meu condado? Ouça bem, só digo uma vez: UM MILHÃO DUZENTOS E CINQUENTA MIL EUROS, MAIS O IVARISTO!

Um quê?

– Você é surdo? Ouça bem, não volto a repetir: UM MILHÃO DUZENTOS E CINQUENTA MIL EUROS + IVA!

Fdx! Presidente, consigo é tudo “à Lagardère”. O país endividado até ao tutano e você a gastar o taco em estátuas!

– Eu gasto o dinheiro como quero. Quem manda em aqui sou eu. Quando é que vocês metem na cabeça que eu sou o herdeiro do Marquês de Pontal?

Por essas e por outras é que os juízes não o largam e depois vem-me chatear a mim e ao Ferreiro para o livrarmos da prisa. Quer dizer, só lhe faltam os Jesuítas para compor o ramalhete…

– Deixe lá o Ramalhete em paz. Grande hoquista, grande autarca, grande apoiante de “moi”. Quanto aos jesuítas tenho a sensação que você ainda me vai levar alguns quando eu for de férias marcadas pelo tribunal. Gosto deles com extra-canela. Vamos fazer o seguinte: vai-me mandar os textos para o livro, vou lê-los e depois telefono-lhe a dar uma resposta, pode ser?

Ei, Presidente, daqui a dias tenho de entregar o relatório do triénio em que estive à frente do CDL e gostaria de anunciar que o livro está no prelo. E vou pôr o logótipo do seu condado no lugar reservado aos patrocinadores.

– Tou a ver que o D’Abreu tá mesmo enrascado. Ora, se o distrito tem 16 municípios, você vai arranjar alguns que vão patrocinar o livro. Três anos à frente do CDL, obra zero, gajas aos montes e aqui o Marquês é que tem de o safar, tá visto. Acha que eu tenho cara de otário, que lhe dou 8.000 sem nada em troca? Acha que isto é a Santa Casa?

Presidente, tou mesmo entalado. Fiz o pedido a alguns municípios da área do CDL e levei nega de todos. O Carlos Cascais nem me atendeu. O Carlos Loures mandou dizer que não me conhece. O Ministro de Mafra diz que enquanto o Cavalo Marinho estiver à frente da AO não dá um cêntimo, o António Costa do Castelo diz que não dá um tusto onde esteja o nome do Enes, que não se esqueceu do mal que ele fez ao PS e ao Bochechas.

– Deixe-se de lamúrias. Considere o subsídio como atribuído. Mande uma carta a pedir o dinheiro. Quero o logótipo do condado em destaque, ouviu? A partir de Janeiro volta a trabalhar com o Ferreiro no meu caso. O meu joanete tem-me doído, significa que vem aí borrasca. Vou precisar dos dois.

Mas o pedido não tem de ir a reunião de câmara?

– Oh, D’Abreu, tá-se mesmo a ver que você não não percebe nada de política. Acha que algum vereador vai recusar um pedido meu? Quem dá e tira os pelouros, quem é? Amadores!

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3 thoughts on “Injustiça, Advocacia, Desordem e Monarquia: uma história mal contada (I)

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